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Franklin Cascaes por correspondência

De Arlete Deretti Fernandes

 

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa para obtenção do título de Bacharel em Letras

Graduanda: Arlete Brasil Deretti Fernandes
Orientadora: Profª Drª Zilma Gesser Nunes
Florianópolis
2007

Ao meu marido Martim Afonso, pelo apoio e companheirismo de todas as horas.

Agradecimentos
Professora Zilma Gesser Nunes, pelo apoio e delicadeza incondicionais.
Professora Rosângela H. Rodrigues pela boa vontade e disposição na orientação teórica.
Ao Diretor da Divisão de Museologia, Hermes José Graipel Junior, pelas sugestões e disponibilidade.
Ao Diretor do Museu Sr. Gelci Coelho, pela atenção e amabilidade.
Assistente técnica Aline Carmes Kruger pelo atendimento cordial.

Franklin Cascaes por correspondência

 

Resumo

Este trabalho de conclusão de curso apresenta a transcrição de dezesseis cartas autógrafas de Franklin Cascaes, correspondentes a quatro décadas: 1950, 1960, 1970 e 1980, integradas ao acervo «Coleção Profª Elizabeth Pavan Cascaes,» que faz parte do Museu Osvaldo Rodrigues Cabral da UFSC.

Foi seguida a orientação metodológica para transcrições estabelecida pela Filologia, Ciência que objetiva aproximar-se o melhor possível da genuinidade dos documentos.

Ao realizar-se a crítica textual foram resgatadas informações contidas nestes escritos sobre alguns fatos ocorridos na história da Ilha. Esta pesquisa acompanhou a grande luta do artista para que sua produção fosse acolhida por uma instituição, assim como acabou acontecendo. Por meio da disciplina Análise do Discurso, o discurso do escritor foi analisado desde o início de sua luta até a acolhida de sua obra pelo Museu Universitário.

Introdução

O meu contato com a Obra de Franklin Cascaes [1] deu-se há algum tempo, quando tive a oportunidade de conhecer seu acervo no Museu Universitário da UFSC por sugestão da Professora Doutora Zilma Gesser Nunes. Esta coleção encanta pela arte que brota natural e espontaneamente da alma e das mãos do artista e que se enriquece em múltiplas facetas.

Cascaes foi mais do que um simples pesquisador, ele retratou o folclore da Ilha de Santa Catarina ouvindo o povo do interior, escrevendo contos, rezas e benzeduras populares, compondo poesias e cartas e também esculpindo e desenhando.

Cascaes precisa ser analisado pelos pesquisadores como o grande artista que foi, qualidade encontrada em toda a sua obra; deverá ser valorizado para além do mito e da magia; será importante fazer-se manifestar o seu verdadeiro valor artístico - literário.

O escritor foi designado e reconhecido através de vários adjetivos, como «o bruxo maior da ilha,» , «o precursor de uma história plural,», «o nostálgico artista que retrata o passado que lhe causa saudade». Estas referências acabaram restringindo o âmbito de leitura do artista e interpretando-o apenas como um mitólogo ou um folclorista.

Os trabalhos de toda uma vida, Cascaes não teve pretensão de vendê-los. Somente através de muitos esforços e lutas foi que conseguiu doá-los ao acervo do Museu Universitário, conforme retratam as palavras do autor, citadas a seguir:

Para mim, amigo artista, a arte é um caminho inato colocado na vida de alguns indivíduos pelo Criador do Universo, e o verdadeiro artista é solitário, mas de dentro dos caminhos de sua solidão ele arranca os frutos dos acontecimentos regionais do seu tempo e os entrega às massas para que elas conduzam de geração em geração como um dos mais verdadeiros testemunhos da verdade dos vestígios da humanidade através da passagem dos tempos.

Franklin Joaquim Cascaes

Manuscrito 262

O acervo de Franklin Cascaes denomina-se «Coleção Elizabeth Pavan Cascaes,» como homenagem póstuma à esposa e principal incentivadora do artista. Toda a obra de Cascaes encontra-se no Museu Universitário da UFSC. Em visitas a este museu pude conhecer e admirar a complexidade da produção de Cascaes, desenvolvida nas mais diversificadas expressões artísticas e gêneros textuais, provenientes de um longo trabalho, amplo e variado, que abrange desde a década de 40 até o início da década de 1980. O valioso e extenso conjunto artístico - literário particulariza-se tanto pelo método operativo quanto pelo processo criativo, porque Cascaes colheu da fonte popular a matéria prima de sua produção.

Após breve introdução sobre a obra do autor, é relevante responder à seguinte pergunta: por que trabalhar com as cartas de Franklin Cascaes? Os pesquisadores podem encontrar dados relevantes nas cartas. Elas funcionam como documento de uma história pessoal, como registro de situações, ações ou reflexões. Maria da Glória Bordini, escreve o seguinte sobre a carta: «Nela há um status peculiar entre o autor e o leitor, tendo muitas vezes valor de crônica.», ( BORDINI, 1998 vol. 4, p.31).

Assim considero que o trabalho com as cartas pode ser um meio para compreender-se melhor o valor artístico - literário da obra de Cascaes e o que ele reivindicou no próprio discurso durante quatro décadas.

Há muito a ser estudado sobre Cascaes, pela diversidade de sua obra e pelo que ainda há para explorá-la. A quantidade de cartas que fazem parte do corpus deste trabalho, dezesseis ao todo, transcritas dos rascunhos originais, trazem em si elementos históricos referentes à vida política e social das décadas de 50 a 80 e as lutas do «humilde professor» (como é citado por ele mesmo) para fazer-se ouvir pelas autoridades constituídas.

Cascaes lutava tendo como objetivo não se deixarem perder as histórias, os contos e os «causos» da cultura popular açoriana na Ilha de Santa Catarina. Os textos de Cascaes não possuem uma disposição linear, seus assuntos expandem-se em vários códigos da linguagem, como o desenho, a escultura e o texto escrito. Cascaes esforçou-se muito para deixar sua obra em um museu, com o intuito de que servisse de estudo para a posteridade.

O Professor Hermes José Graipel Júnior, Pesquisador da Divisão de Museologia do Museu Universitário, fez-me uma interessante sugestão que acatei com muito prazer. Analisar as mudanças do discurso de Cascaes antes e depois de sua entrada para a Academia.

Em 24 de janeiro de 1974 foi assinado o convênio para Cascaes começar a trabalhar no Museu Universitário. Surge daí a questão que gerou um dos objetivos do trabalho. Perguntou-se se o amparo institucional poderia promover uma alteração no discurso do autor. E, se houve esta mudança, quais são as hipóteses levantadas para justificá-la.

Pesquisar os interlocutores, instituições e pessoas com as quais o autor comunicou-se e o discurso contido nestas cartas poderá sugerir-nos uma idéia mais completa dos objetivos a que se pretende atingir e que são os seguintes:

a) De acordo com a Filologia, transcrever as cartas autógrafas através do método paleográfico, isto é, conservando a maior proximidade dos originais e das verdadeiras intenções do autor. A Filologia dá importância fundamental à recuperação de documentos. Seria pesaroso deixar que o tempo, (apesar de todo o esmero e cuidado dos conservadores e restauradores ), viesse desfigurar as cuidadas e preciosas folhas antigas. Para a transcrição das cartas será usado o referencial de Segismundo Spina, a Edótica, e de Antônio Houaiss em Elementos de bibliologia.

b) Depois de transcritas, as cartas serão analisadas através da disciplina Análise do Discurso, para se concluir se houve ou não mudanças no discurso de Cascaes nos dois períodos: antes e depois de sua integração ao museu universitário.

Por ser interessante e peculiar a obra de Cascaes, sugere-se que outros pesquisadores se interessem pela mesma, particularizando-se a literatura, de modo que esta venha a figurar no rol dos escritores deste Estado, pois quase não há menção a este autor em livros específicos sobre os escritores de Literatura Catarinense.

 

[1] Franklin Joaquim Cascaes nasceu em Itaguaçu, antigo município de São José, a 16 de outubro de 1908. Professor do Ensino Industrial Básico desempenhou em 1963, a função de Coordenador de Ensino. Quanto à atuação artística, é significativa a exposição de Cascaes em 1959, que a convite do Museu de Arte Moderna de Florianópolis, expôs um conjunto de motivos folclóricos da Ilha. Igualmente é reconhecido em 1978 no circuito artístico nacional, ao representar a arte catarinense na Bienal Latino-Americana de Artes, realizada no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Em 1983 Franklin Cascaes falece em conseqüência de uma cirurgia de cálculo renal.


Continua no próximo número

 

Nota da Redacção: Este trabalho de Arlete Deretti Fernandes já foi publicado no jornal Raizonline em circunstancias e forma diferentes desta publicação: Na verdade foi apresentado no jornal uma nota sumária com remessa para um anexo contendo o restante do trabalho. Dada a diferenciação gráfica que é possível apresentar nesta data, fazendo em certo sentido dele uma primeira publicação (nesta forma) achámos por bem não o considerar na secção «Recordar o Raizonline - Trabalhos de números de arquivo».

 

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