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Fundação Logosófica – Em Prol da Superação Humana - São Paulo
Deficiências
do temperamento humano - Inclinação a incomodar-se
(Carlos Bernardo González Pecotche – RAUMSOL)
Pode muito bem ser anotada como uma das mais visíveis e prejudiciais
deficiências do temperamento humano a atitude de incomodidade que comumente
o homem adota para dar a entender que aquilo que dele se solicita, seja o
que for, lhe ocasiona desgosto.
O ser é de per si comodista; mais ainda, parece fazer um culto ao comodismo.
A isto obedece, indubitavelmente, o fato de qualquer coisa o incomodar e de
ele se sentir pouco inclinado a pensar, dizer ou fazer aquilo que o obrigue
a interromper sua inatividade. Quantas coisas ele não deixa de pensar ou de
fazer para evitar incômodos ; a soma de todas essas circunstâncias
assinalará, com o tempo, um grande vazio em sua vida, que ele não soube
preencher por causa de sua atitude.
Se considerarmos esta deficiência como uma anomalia do temperamento humano,
que oprime a vontade, facilmente se verá que, eliminando-a, o ser fica
liberado de algo que só contribuía para lhe ocasionar prejuízos.
Quando se tem uma ampla compreensão da vida e são superadas as dificuldades
que faziam amarga a existência, a pessoa se torna resignada, manifesta
consideração para com os demais e é tolerante. A sensação de incômodo poucas
vezes consegue manifestar-se no caráter daqueles que já dominaram as
características inferiores da impaciência, da intolerância e da
irascibilidade.
Sem dúvida alguma, a tendência a incomodar-se por qualquer coisa é uma falha
da educação, não precisamente daquela que se recebe nas salas de aula, mas
sim da que cada ser cultiva no curso de sua vida, enquanto a observação e a
experiência vão assinalando as facetas do caráter que necessariamente devem
ir recebendo polimento.
Os afagos de uma vida folgada não são, por certo, o meio mais propício de
eliminar as contrariedades provocadas pela manifesta tendência a
incomodar-se; ao contrário, a privação costuma ser com freqüência boa mestra
nesse sentido, já que permite o predomínio do ajustamento sobre a atitude de
incomodar-se, o que, por sua vez, torna o ser afável e benévolo.
Quem compreende que a manifestação de incômodo é uma intransigência do
caráter e repara esse inconveniente, dando ensejo a uma boa disposição, já
terá corrigido, pode-se dizer, a rota tortuosa que muitos devem percorrer,
levados por esta característica tão pouco grata e edificante.
A tendência a incomodar-se tem muito a ver com a suscetibilidade do ser,
pois que, quanto mais esta se manifesta, tanto mais aparecem os sintomas do
incômodo como algo muito difícil de conter. A última contenda* demonstrou
que, na defesa comum, diante dos perigos que ameaçavam a todos, não houve
quem manifestasse incômodo – ridículo teria sido o contrário – por ter que
partilhar a mesma adversidade e os mesmos rigores criados pela guerra. Isso
evidencia que a aproximação nas horas de dor e de luta humaniza os seres,
estabelecendo uma boa disposição para a ajuda mútua.
O ato de incomodar-se, portanto, quando não tem uma justificativa lógica,
viria a representar um vestígio de intolerância que, desde tempos
imemoriais, tem dividido os homens, fazendo empalidecer a compreensão que
deviam ter de sua origem e natureza comuns.
* N.T.: Tendo publicado este artigo em dezembro de 1945, o autor se refere à
experiência da Segunda Guerra Mundial.
(Excerto da Coleção da Revista Logosofia – Tomo II)