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Poesia de Albertino Galvão
Quando...
(in meus poemas loucos)
Quando...
Quando a noite desce
envenenada de angústias
e desliza como serpente cega
pelas esquinas dos vícios
cuspindo estrelas sem brilho
sobre corpos sem alma
ataca virtudes!
Quando ela aparece
como fêmea macabra
chiando de cio
às portas da solidão
ou uivando pregões
como vendedeira maldita
oferecendo morte
em troca de vida
assassina virtudes!
Quando a noite vem
como vampira megera
enterrando os dentes
nas virgens que espreitam
prazeres sem regras
em camas vadias
suadas, manchadas...
por demais conspurcadas
por outras entregas
viola virtudes!
Quando a noite chega
como ogre disforme
em busca de jovens
que queiram sentir
correr-lhes nas veias
o pó da loucura
num fluxo de morte
e delírios fantasmas
a morder-lhes o cérebro
asfixia virtudes!
Quando ela desliza,
de arrepios vestida,
pelas caleiras do medo...
a lua não se revela
p’ra não chamar atenção...
e a virtude já despida
escancara-lhe a janela...
pernas abertas, passiva,
recebe a noite obscena
num amor de perdição!
Quando a noite vem
a cavalo no demónio...
os sinos perdem o som
no campanário da sé...
«anjinhos» queimam as asas
nas fornalhas do cinismo
e a hipocrisia sem rosto,
vestindo fato engomado,
apalpa o cu à virtude
enquanto beija a mentira
num linguado descarado.
Quando a noite chega
como bruxa avoada
vomitando má sorte...
choram os homens sem nome
sem tecto nem condição...
gemem mulheres entregues
aos braços da prostituição...
tombam crianças na rua
beijadas p’la maldição...
rezam as bocas sem fé
nos sótãos da ilusão...
uivam sirenes na rua
como lobos no sertão...
tremem as mãos do mendigo
ao abraçar a tristeza
no leito de papelão
onde masturba a desgraça
e onde fornica a virtude
entre folhas de jornais
que publicitam mulheres
vendendo em saldo seus sexos
nos mercados encobertos
por cobertas sem pudor.
Abgalvão
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