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Jornal Raizonline nº 145 de 7 de Novembro de 2011

COLUNA UM

Daniel Teixeira

 

Falar da vida (crónica quase pessoal)

Por vezes encontramo-nos quase de surpresa a fazer aquilo que normalmente se poderá chamar de ligações quase directas ao nosso passado quando nos confrontamos com situações do dia a dia. Dizer que «no meu tempo» era assim ou de forma diferente são afirmações que encontramos espalhadas pelo nosso pensamento do momento que de imediato se ligam ao passado com comparações que afinal são a razão deste tipo de pensamentos.

Como eram os mestres antes, os professores, como é a escola hoje é um tema recorrente neste tipo de reflexão: como se analisam ou vêm simplesmente dados comportamentos que consideramos contrastantes com aqueles que tínhamos nos «nossos» tempos são também acontecimento frequente.

Afinal o que se esconde, se é que se esconde, por detrás deste nosso tipo de raciocínio acima sumarizado? De uma forma geral é a crítica desfavorável aquela que mais aparece ou a que mais fica nas nossas memórias. No entanto todos os dias temos razões por nos admirar com algumas coisas que são boas dentro das actividades dos nossos filhos ou netos (ou bisnetos).

No capítulo da aptidão informática e para as novas tecnologias, por exemplo, é por vezes surpreendente pela positiva a abertura e a capacidade de resolução que os mais novos têm para com o tema. Vamos familiarmente reconhecendo isso todos os dias mas se encontramos um ou uma jovem tendo na rua um comportamento que consideramos reprovável não colocamos numa balança aquilo que reparamos em casa para contrabalançar com alguma dose de tolerância aquilo que vimos na rua. Breve...queremos só a parte «boa» do campeonato e dizemos que no «nosso tempo não era assim ou não se fazia assim». Por vezes acrescentamos que «este mundo está uma desgraça»!

Este divórcio entre gerações sempre existiu: grande parte de nós também passou pelo período da contestação dos seus pais ou das formas de vida que lhes eram, nesse tempo mais impostas que sugeridas: Alexandre O'Neill com algum humor diz que saiu da casa paterna porque o pai queria que ele levasse o guarda - chuva e ele insistia que não. Acabou por ir sem guarda - chuva e não voltar...

Por isso, quando dizemos que no nosso tempo «não era assim» ou que «não se fazia assim» seria bom que tivéssemos presente a outra parte do nosso passado, aquela em que fomos contestatários para pelo menos dosear um pouco a nossa verve crítica e acabaremos por ficar também melhor com nós mesmos.

Tudo faz parte de processos «em pacote»: quer dizer, ter tudo de bom era mesmo bom, de facto, mas tal como numa árvore há frutos maiores e outros menores igualmente bons, na árvore da nossa vida actual também.

Ver as coisas começando pelos aspectos positivos é uma excelente filosofia e dá sobretudo uma enorme tranquilidade. O bom relacionamento com culturas e formas de pensar e de estar diversas é uma constante cada vez mais importante.

A nossa capacidade de trabalho no jornal e na rádio Raizonline rege-se por estes princípios no que se refere às nossas análises sobre aquilo que publicamos em escrito ou em sonoro e não sentimos que as coisas estejam a correr mal, antes pelo contrário.

 Daniel Teixeira

 

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