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Haicais de Se-Gyn

Nuvens - 08 haicais; Dia do Saci - 05 haicais (com texto complementar)

 

Nuvens - 08 haicais

 

01. ronda à noitinha:
um cão vadio esquadrinha
a calçada do bar

02. vaga a leve nuvem
sob um paredão de nuvens --
parece um balão

03. chuva sobre o jardim --
o gato deitado e imóvel
parece uma esfinge

04. a moça encolhida
um guarda chuva pequeno
para tanta chuva

05. olhos de estátua --
o que ela pensará agora
vendo a chuva cair?

06. histórias familiares --
o irmão gordo e sorridente
me lembra o buda

07. o tempo da infância --
vago som das moscas voando
sobre mangas caídas

08. coisa de bruxaria:
buscava «manga» no Google
e só vinha mangá

 

Dia do Saci - 05 haicais

 

01. no fundo do sertão
vale a lei do murici --
é dia do Saci

02. ventou no bambú
e tinha um saci lá dentro
assobiando agourento

03. vem pé de vento
pé de pinto, pé de pato --
Saci vaga no mato

04. das grimpas do pequi
cai botão, cai fruta verde --
o Saci faz suas artes!

05. saltando num pé só
sempre cheio de trê-lê-lê --
Saci Pe-re-rê*

 

Tempos atrás, alguém encasquetou com a introdução do Hallowen no Brasil e tocou uma campanha para a criação do «Dia do Saci», como forma de preservação e prestígio das coisas da nossa cultura e do nosso folclore. Deu certo e acabou virando lei. Assim, no dia em que muitas escolas promovem a festa do Hallowen, foi estabelecido como o dia do símbolo máximo do folclore brasileiro.

E, a figura do Saci Pererê, reune em si, quase todas aquelas características e qualidades que as figuras presentes na festa estrangeira. Ele é esperto, belicoso, um tanto traiçoeiro e imprevisível. Mas, sobre os outros, tem uma incrível vantagem: a simpatia e a alma brasileira.

A título de comemoração (ou, como queiram, alguma resistência) do «Dia do Saci», compus uns haicais (ver acima) onde o personagem é retratado, tendo muito há ver com a imagem do Saci do tempo da infâncias, dos clássicos livros de Monteiro Lobato e, ainda, um pouco do simpático Pererê, criado pelo cartunista Ziraldo e, por fim, a uma música de Jorge Benjor, feita para um especial de TV, com a Turma do Pererê, do citado cartunista.

Mas, a figura do Saci, para mim tem algo de força e imagem profundamente enraizada na memória.

Nasci e vivi na zona rural do município de Turvânia - Goiás, até os nove anos de idade. Se havia uma entidade que eu e a minha turma respeitava, na época, era o Saci Pererê. Era um misto de temor e fascínio, o que movia a nossa imaginação em torno de sua figura curiosa, mítica e, livre.

Se estivéssemos numa caçada de estilingue e algo assoviasse tão alto e forte que nos assustasse no mato ou na capoeira, aquele fato era logo colocado na conta do Saci arteiro. Se o estilingue estourasse uma goma, na hora de atirar contra um passarinho, se fossemos surpreendidos por um estouro de boiada, ou pegos uma ventania inesperada, sempre atribuíamos a culpa ao malandro do Pererê – que coincidia com a prática dos mais velhos, que também gostavam de dizer (talvez para nos meter mais curiosidade ou medo) que muitos eventos eram da iniciativa do coisinha ruim: cercas de divisa abertas, nós nos pelos das montarias, ninhadas de ovos perdidas e, assim, ia...

Aventura pelas matas e regiões distantes, só em grupo: ninguém queria topar com o Saci pelo caminho, para ser interpelado por fumo para seu cachimbo, pois a negativa poderia render um troco terrível.

Mas, é claro: quem pegasse um Saci e o colocasse na garrafa, poderia virar seu mestre, e exigir dele o que ele pudesse fazer. Por isso, não foram poucas, as vezes em que eu e meus primos fizemos vigília diurna à porta da casa, esperando a passagem dos redemoinhos de agosto, com a peneira de taquara, para nos atirar contra ele e tentar atingir seu epicentro, onde dizia as lendas estar abrigado a danado.

Mas, por falta de possibilidade prática ou receio, a turma dava sempre um jeito de fracassar no intento, muito embora, voltássemos pra dentro de casa em bando e cheios de bravata, ressalvando nossa destreza e coragem, na caça do buliçoso e traquina Saci Pererê, aquele tipo risonho, esperto, poderoso e ameaçador, que fazia parte de nosso imaginário e dia a dia.

 

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