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Momentos partilhados - Um Conto/Novela de VIRGINIA TEIXEIRA

 

Parte II     

(Leia desde o inicio aqui)

Como é possível que não o odeies se ele nos vai matar às duas quando se for?
Não quero viver sem ele… Simplesmente não sei como… Ajuda-me, dá-me um pouco dessa força que te impele a estar sempre com ele com uma ternura que me magoa. Não posso dar-lhe o mesmo, não sou forte a esse ponto. Ajuda-me a dar-lhe a mão quando ele se for e perdoá-lo verdadeiramente.

Quero o nosso homem vivo, quero odiar-te porque o Natal é teu e ele me deixa só. Quero odiar-te porque os nossos filhos andam na mesma escola e não sabem o que os une. Quero odiar-te porque o amas e tenho medo de não o amar da mesma maneira… Quero odiar-te porque insistes em prender-me nos teus braços num carinho que me enlouquece e me obrigas a olhar o nosso homem a morrer a cada instante. Odeio-te porque quando ele nos chama, nunca deixas que eu me esconda. Odeio-te porque tu entendes, mais do que eu, este homem. Odeio-te porque tenho medo que o cheiro dele se escape de mim quando ele se for e tu vejas que és mais que eu.

Sei que sou dele. Dediquei estes anos aos encontros que podíamos ter e nunca lhe pedi mais. Acho que esperei o dia em que ele se decidisse. Afinal ele sempre soube que éramos capazes de o amar sinceramente, ainda que o partilhássemos.

As pessoas apontam-me na rua por estar aqui. Sei que dizem que és doida e me devias expulsar. Mas têm pena de ti. Vão cumprimentar-te no funeral e voltar-me as costas. Parece pouca coisa, eu sei.

Tens um riso bonito. Plácido mas verdadeiro. Ris-te muito do que digo. Sei que me preocupo com coisas parvas, mas dou-me a esse direito agora que tenho o teu ombro para me apoiar. Até quando não sei… Como me tratarás depois dele partir?

No dia em que vieste tremi. Pensei que tinhas descoberto e vinhas dizer-me que ele era teu e me querias longe. Pensei que só agora sabias que o andavas a partilhar. Vieste com um olhar carregado que pensei ser de raiva, mas era apenas tristeza. Eu e ele tínhamos discutido. Uma coisa parva, ele afastou-me quando soube que estava doente e correu para casa. Não me procurou por semanas nem soube dele até tu apareceres.

Apeteceu-me gritar que podias ficar com ele e escusavas de me chatear. Com uma voz calma pediste-me para entrares, sentaste-te no banco da cozinha e pediste um café. Fiquei desconcertada com a tua placidez. Cheguei a desejar que me batesses, que me matasses mesmo. Há semanas que sofria sem saber como recuperá-lo. Não podia procurá-lo, era sempre ele que vinha ter comigo, não podia arrastá-lo de volta e tive de me conformar no meu canto a não o ter mais.

Depois vieste tu e não vinhas matar-me, vinhas salvar-me. Bebeste um gole de café e aclaraste a voz. Com uma certa indiferença, que percebo hoje ter sido apenas tristeza, disseste-me, sem me deixares interromper, que sabias há muito tempo que ele me tinha e que depois de me ter deixado tinha ido para casa e confessado o caso de anos. Tinha confessado também a doença e pediu para ficar contigo. Disse que queria morrer ai.

Tu perdoaste o que já tinhas perdoado há anos e tomaste conta dele. Paraste para beber outro gole de café e de supetão pediste-me que fosse viver com vocês até ele morrer. Querias que ele estivesse com as mulheres que amava. Disseste que sabias que ele nunca te pediria isso mas era a vontade dele. Viste o nosso filho mais novo chegar e sorriste-lhe com uma ternura genuína.

Foi ai que te comecei a entender. Sentei-me, trémula com a notícia e com o pedido e fiquei muito tempo calada. Esperaste um pouco e depois continuaste a falar, a explicar-me a tua ideia. Eu assenti com a cabeça sem saber o que te responder. No dia seguinte mudei-me com o menino para tua casa e temos velado, juntas, o nosso homem, cada uma com o pavor encravado no peito. Somos irmãs nesta dor e ninguém nos entende.

Ele é feliz, sabe que está a morrer e gosta de nos ter as duas perto dele. Já não se coíbe de nos chamar e sabe que estamos totalmente entregues a ele e a estes momentos que, agradecida e desgostosa, partilho contigo. Seguras-me na mão como uma mãe quando os ataques me sufocam e choro sem conseguir reter uma lágrima que seja. Não quero perder este homem que é a minha vida. Sou dele há anos demais e só com ele vi a felicidade passar.

Tenho saudades das tardes em que ele me segurava nos braços ternamente depois de saciados. Sei que também sentes falta das tuas tardes, das tuas noites, deste homem. Sei que vamos morrer as duas quando ele se for e às vezes não consigo respirar com a ideia.

Passámos a primeira noite as duas nos cadeirões perto da cama dele. Ele dormia anestesiado pelos comprimidos e quase ri quando acordou e me viu ali. Olhámos a expressão dele, ele olhou-nos às duas, parou o olhar no teu, disseste-lhe tudo sem uma palavra, ele agradeceu sem uma palavra e voltou a adormecer com um sorriso que é só dele, que nunca descobri em rosto nenhum. Ele é único e nós sabemos.

Por ele fizemos e fazemos loucuras. Estamos aqui, envoltas em morte, e não queremos estar em mais lugar nenhum do mundo. Nada nos arranca daqui, nenhum sitio se assemelha mais ao paraíso do que este quarto onde o nosso homem morre. Saímos daqui poucas vezes, nunca as duas. Pensei que pudesse sentir ciúmes de o deixar só contigo, mas acalma-me saber que o embalas.

Sei que sentes o mesmo. Não me queres afastar daqui e quando ele acorda de noite com tremores e eu não estou, vais acordar-me de mansinho para te ajudar. Não queres que ele morra só contigo. Também não quero que ele morra nos meus braços. Agora sei que ele é nosso e o momento da despedida tem de ser nosso também. Já vivemos em separado muitos instantes com ele, este ultimo é para saborearmos amargamente em conjunto e depois podermos desabar nos braços uma da outra.

Quando anoitece assalta-me um frio maior, um terror que é superior à felicidade de o ter tido e de viver estes momentos contigo, minha irmã. Sei que falta pouco para que ele se vá e para aquele nascer do sol que vai ser mais escuro que qualquer outro. Vamos acordar, cada uma do seu lado, com os braços envoltos nele e as mãos dadas, e sentir o corpo frio do nosso homem.

Não sei se vamos ter forças para chorar, ou se no momento em que beijarmos a face rígida do nosso homem, apenas um suspiro vai escapar. Um suspiro ou um soluço onde a nossa própria vida se vai escapar, e duas almas vão perder a cor, o caminho, a paixão de existir… Duas irmãs mortas no mesmo momento, três cadáveres numa mesma cama.

 

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