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Poética de Ilona Bastos
A ESCRITA EM MIM; FELICIDADE; PINTURAS FOTOGRAFICAS; ESCREVER OU NAO
ESCREVER
A ESCRITA EM MIM
Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como
discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é
esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem
avisos, o seu discurso interior?
Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com
estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
Mas, que fazer? é assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada,
imperativa, incompreensível quiçá...
Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou
censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas
com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou
simplesmente anotar as suas ideias.
Ilona Bastos
FELICIDADE
Uma vez mais posso concentrar-me apenas no verde e nos caracóis
brilhantes dos pinheiros, pairando encosta acima, até tocar o azul dos
céus.
Não descerá, então, o meu olhar, do luminoso aveludado da erva que a
chuva alimentou e o sol torna reluzente.
E a ténue suspeita dos insectos a pairar pela mata, num vívido luzir de
asas, ou o chilrear anónimo das aves que daqui não avisto, tudo
misturado ao voo das nuvens, à quentura da tarde, à claridade da rua,
enche-me a alma de uma tranquila felicidade!
Ilona Bastos
PINTURAS FOTOGRAFICAS
Estas pinturas fotográficas não me deixam. Obsessivamente me atraem com
novos tons, novas texturas, novas formas.
Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor
silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios
da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula
mancha esverdeada, que a acenante corola recortada. Diante da lente
investigadora e provocatória da câmara, ganham dimensão monumental,
complexidade fabulosa, detalhes extraordinários, textura belíssima, cor
arrojada. Que mistérios, que tesouros descubro através desta visão
inconveniente da câmara fotográfica!
No écran, as imagens deixam-me muitas vezes sem fôlego. Que beleza, que
espantosa perfeição!
E sucedem-se estas pinturas fotográficas que me apaixonam.
Ilona Bastos
ESCREVER OU NAO ESCREVER
Ontem à noite, já muito tarde, pouco antes de me deitar, decidi: amanhã
vou recomeçar a escrever.
Uma voz mais fraca, ainda que gentil, sussurrou: mas é precisa
inspiração, ou escreverás textos sem qualquer valor.
E fui para a cama a ponderar, a discorrer sobre o valor de escrever
textos desinspirados.
Pouco antes de adormecer, confiadamente, lembrei-me de que o acto da
escrita precede, muitas vezes, o do pensamento. E senti-me encorajada
pela decisão que me consentira tomar.
Ilona Bastos
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