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Desde 7 de Março de 2011
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As bruxas da Ilha da Magia.

 

Texto de Arlete Deretti Fernandes

 

«As mais famosas bruxas da Ilha vivem lá no Ribeirão. Só comem pétalas de rosa prá ter cheiro no coração». (Franklin Cascaes, (16.10.1908 - 1983), foi o mitólogo da Ilha, escritor, artista e pesquisador popular).

 

Ontem foi mais uma noite em que as bruxas saíram e sobrevoaram o Pântano do Sul, o Morro das Pedras, a Lagoa da Conceição e a Ponta das Canas.
Elas não aparecem do nada, há um ritual de iniciação realizado em casas mal assombradas, ilhas, grutas de pedras, canoas de pescadores ou praias isoladas. E têm seus amores, suas metamorfoses, seus congressos e eleições.

- ô rapagi, eu vi ontem as bruxas montadas em vassouras, sobrevoando lá no Ribeirão!
Era lua cheia e elas passavam dando gargalhadas assustadoras pelos pastos.

- Si mali num lhe pregunto, tu não deste uma sipuada no meio dos cornos delas?

- Tu tas loco, istepô, me tranquei em casa só espiando por uma greta da janela. Era uma gritaçada que as bucicas latiram a noite toda. Cheguei até a ficar destemperado.

- Pois dijaôje eles estavam contando lá na venda que os cavalos amanheceram cheios de nós nos rabos e nas crinas, feitos pelas marvadas. Teve um que tinha chupadas de sangue no pescoço.

- ó-lhó-lhó!

- Tu não ouviste falar na filha da comadre Néia? A menina não arribava porquê as bruxas chupavam o sangue dela de noite.
Foi aí que a comadre pegou uma oração poderosa que era do seu Francolino e elas foram embora e não voltaram mais. A menina arribou que é uma beleza, ficou vermelha e gordinha.
Vou te dar a oração prá te proteger: é assim:

«Tosca, marosca, rabo de rosca.
Vassoura na tua mão e freio na tua boca.
Relho na tua bunda e aguilhão nos teus pés.
Por riba dos silvados e por debaixo dos telhados.
São Pedro, São Paulo e São Frontista e por cima da casa São João Batista.
Bruxa tatarabruxa tu não mo entras nesta casa – nem nesta comarca toda, por todos os santos dos santos. Amém.»

 

Observações: 

Neste texto há palavras que fazem parte do vocabulário dos nativos da Ilha, e que se originaram da língua dos índios carijós, dos açorianos e do sotaque gaúcho ou castelhano. Um amplo mosaico lingüístico de como se falou e se fala hoje. Há uma musicalidade e sonoridade próprias. Interessante, enriquecedor e engraçado.
Significado das palavras do dicionário «manezês» acima:
Rapagi: rapaz.
Si máli nom lhi pregunto: Se mal não lhe pergunto.
Sipuada nos cornos: Pancada.
Tu tas loco, istepô: Estás bobo; istepô: palavra usada para dizer que a pessoa não presta, mas também é usada de forma carinhosa.
Greta: fresta
Bucica: cadela.
Destemperado: com desarranjo.
Dijaôje: ainda agora, hoje mesmo.
Marvadas: malvadas.
ó-lhó-lhó: expressão de admiração ou sarcasmo.

 

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